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A tragédia terraplanista

Para um observador ingênuo é difícil perceber que vivemos num planeta esférico, afinal, para todo canto que olhamos, vemos um horizonte plano. Felizmente, pensadores não são ingênuos e conseguem vislumbrar aquilo que não está ao alcance dos sentidos. Assim surgiu, ainda no mundo antigo, a hipótese de que a Terra fosse redonda, proposta por Pitágoras, ideia que se difundiu e teve poucos opositores entre os intelectualizados. Mais tarde, Aristarco de Samos sugeriu que nosso planeta girava em torno do Sol, e Eratóstenes de Cirene mediu com grande precisão a sua circunferência usando sombras projetadas em diferentes latitudes. Veio a Idade Média, a Idade Moderna e a Idade Contemporânea. Nesse tempo, teoria e prática sempre corroboraram a validade daquele pensamento iniciado no século VI a.C. e aperfeiçoaram sua dimensão a tal ponto que, hoje, a humanidade tem à disposição facilidades como um sistema global de geolocalização orientado por satélites em órbita da bola em que moramos.

Mas à margem de todo esse sólido conhecimento acumulado e comprovado sobre o formato da Terra habita um grupo de pessoas que discorda da sua esfericidade e que vai além: atribui esse paradigma a uma conspiração mundial que atravessou milênios. São os adeptos da teoria da Terra plana. Questionar teorias científicas não é o problema, aliás, é isso que faz um cientista. Tais indivíduos, no entanto, escolheram refutar o modelo mais bem estabelecido da ciência. Eles comportam-se como fanáticos e não apresentam sequer um argumento convincente a favor da sua teoria. Fogem dos debates sérios e insinuam que os que creem na Terra redonda – sim, eles acham que a Terra esférica é uma crença – são tolos que precisam ser despertados para o verdadeiro conhecimento. Sua área de evangelização é a internet, já que não encontram espaço nos meios acadêmicos, e pesquisas indicam que seus seguidores são os menos escolarizados, que, de maneira geral, estão mais vulneráveis a aceitar ideias esdrúxulas.

Apesar de adotarem uma postura supostamente imparcial e, segundo eles, científica, desconfio que boa parte dos simpatizantes da ideia entendem que tal perspectiva de mundo harmoniza melhor com textos sagrados. Basta uma olhadela nos comentários sobre o tema nas redes sociais para chegar a essa conclusão, porém, ainda tive a oportunidade de falar com um dos maiores entusiastas brasileiros do terraplanismo, que comprovou minha suspeita. Quando perguntado sobre o porquê de a Terra, segundo sua visão, ser diferente de tudo o que observamos ao olhar para o céu, de aparentemente não obedecer às leis universais, surpreendeu-me com o comentário: “mas a Terra pode ser diferente!”. Isso indica claramente uma abordagem parcial e não científica. E assim cresce, sorrateiramente, um movimento obscuro cujo objetivo é desconhecido, mas que causa certo impacto nas mentes menos preparadas, que passam a olhar a ciência com desconfiança. Discutir isso no século XXI seria cômico se não fosse trágico.

Daniel Angelo – Ciência em Show

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