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Para que ciência?

A cada toque que damos na tela do smartphone, um pequeno milagre acontece: o comando disparado pela ponta do dedo tem como resultado uma interação gráfica numa tela luminosa que forma figuras de alta resolução. Tudo isso porque todos os componentes do aparelho funcionam em perfeita harmonia. Tudo isso porque pessoas trabalharam, ao longo de milhares de anos, produzindo o conhecimento necessário para que um ser humano pudesse manipular a matéria com tanta precisão.

Ainda na Pré-História, povos aprenderam a extrair cobre e estanho dos seus respectivos minérios e, assim, inventaram uma nova matéria-prima, o bronze, que é uma liga dos dois metais. Na sequência, descobriram o ferro e, com ele, fizeram o aço. A partir desse período, classificado como Idade dos Metais, os avanços científico e tecnológico se aceleraram. Surgiram a escrita, a matemática, conceitos importantes como o dos elementos, proposto por Tales, que sustenta a teoria do átomo, apresentada por Demócrito. Foi criada a ciência experimental, por Galileu Galilei, e o método científico, por Francis Bacon, ambas as ideias essenciais para as grandes descobertas. Pieter van Musschenbroek inventou a garrafa de Leiden, dispositivo capaz de armazenar energia elétrica considerado o precursor dos capacitores, e Faraday criou a teoria do campo, base teórica para o estudo do eletromagnetismo que, inclusive, conceitua o funcionamento dos capacitores. Mendeleiev propôs a tabela periódica, que organiza os elementos em função de suas propriedades físico-químicas. Thomson descobriu o elétron. Surgiram o transístor, componente que é a peça fundamental da eletrônica moderna, os circuitos integrados, a tela de cristal líquido, a tela sensível ao toque, o computador pessoal, o smartphone… Com um passo de cada vez, a humanidade caminhou do bronze à microeletrônica, amparada pelo conhecimento.

Entendendo essa longa jornada, não surpreende a existência de uma tela interativa que responde ao nosso toque digital. Elétrons movimentam-se em pontos específicos da tela – que, aliás, se comporta, eletricamente, como um capacitor – quando o dedo perturba seu campo elétrico. Dentro do dispositivo, a ação é intermediada por milhões de transístores encapsulados em pequeníssimos chips, que geram novas ações e resultados sob o comando de um software. Elétrons que vão e que vêm são transcodificados em imagens, vídeos e textos nas telas. Cobre, estanho e ferro, ironicamente os primeiros metais prospectados por nossa espécie, estão entre os mais de trinta elementos químicos que compõem cada smartphone do planeta, esse símbolo máximo da inovação tecnológica. Popularizar a ciência é mostrar a todos que o conhecimento é consequência de um caminho longo e cheio de esforços percorrido pelos seres humanos. É lhes oferecer a oportunidade de desfrutar dele de maneira ativa, consciente e crítica para que possam tomar boas decisões individual e coletivamente. É entender que esse pequeno milagre que acontece quando tocamos a tela chama-se, na verdade, ciência.

Daniel Angelo – Ciência em Show